Eva, ou da convalescença do eu erótico.
Não tinha de ser da dor ou do anel grave no anelar que alguma coisa lhe saía. Eventualmente apoiaria a testa nas mãos mas cedo perceberia que não havia, nessa noite, o que quer que, de solene, tivesse de ser reunido por concentração desmedida na potência de sentir tristeza.
Havia noites em que o amor era tão frívolo como um cigarro fumado lentamente ao som de um jazz elanguescente. A certeza delineada de independência dava-lhe bem mais segurança do que qualquer movimento espontâneo de fé, e gostar de estar ali, a ouvir aquela música, com a desobrigação da solidão a distender-lhe os músculos como um banho quente, era mais capaz do que o esforço de reorientação positiva a exercer constantemente sobre a tendência louca do amor que é pungente.
Então escreveria sobre a mulher que é só.
Ela não existe em lado nenhum da sua rua nem dos seus anos, mas não há milímetro da sua pele branca que lhe seja desconhecido, nem ângulo que o seu corpo desenhe que não esteja já nas prescrições frias e académicas da perfeição estética. Ela não existe e no entanto é toda corpo. Esfíngico, de cera, gélido e tão só aquilo mesmo que adivinhar-lhe na impenetrabilidade da expressão uma complexa densidade emocional é mais uma condescendência desavisada que se faz por ser de facto muito bela; ou então um abuso de uma fantasia cinematográfica qualquer que começa e que acaba em nós.
Eva é manequim de um amor de poeta; nunca ninguém disse que Eva seria Eva se não tivesse um braço ou fosse mais gorda. Ela é só pele a amar; e há bastantes semelhanças entre ela e a sala onde se senta a fumar e a escrever quem a criou – podemos chamar-lhe filha do ímpeto funcionalista da desobrigação.
Não há nada de paradoxal nisto: que uma pessoa inebriada de amor por outrem se sente, certa noite, e acumule toda a vibração, que habitualmente lhe possuí o discernimento e se lhe confunde com a identidade, numa massa concentrada extrínseca e se demore depois a esculpi-la, a dar-lhe forma, a dominá-la.
Não, não é o prazer sexual, porno, de criação do corpo ideal – este é o prazer erótico de controlo do eu. É Eros por excelência: batota terrena para superação de uma falta que se sente, tensão para a metade que achamos ser de nós porque vivida como excesso fantasmático. Se habitualmente o amor por outrem leva a pessoa que está na sala a senti-la como lhe sendo devida, como sua metade certa por direito, esta noite a vertigem erótica da deposição na metade a haver foi apaziguada pela suficiência de um ponto de aplicação simulacral que foi inteiramente por si determinado, que é uma sua extensão, um seu duplo – um assistente de autarcia ontológica, por assim dizer.
A mais persistente das amantes, a que assola até os casais mais apaixonados, a mais incontornável das infidelidades: eis a solidão apresentada. Esfíngica Eva, bela, gélida, e imperturbável paz, independência da suficiência da solidão; Eva, filha do ímpeto funcionalista que devolve o eu erótico a si próprio e torna a pessoa que está na sala finalmente livre e autárquica.
Toda a violência desapareceu, a mulher que ama mais que tudo acaba de entrar agora em casa e não há angústia nenhuma de possessão.
Havia noites em que o amor – o amor a sério, aquele que se quer muito que resulte – era tão frívolo quanto isto: pura convalescença do eu.
Havia noites em que o amor era tão frívolo como um cigarro fumado lentamente ao som de um jazz elanguescente. A certeza delineada de independência dava-lhe bem mais segurança do que qualquer movimento espontâneo de fé, e gostar de estar ali, a ouvir aquela música, com a desobrigação da solidão a distender-lhe os músculos como um banho quente, era mais capaz do que o esforço de reorientação positiva a exercer constantemente sobre a tendência louca do amor que é pungente.
Então escreveria sobre a mulher que é só.
Ela não existe em lado nenhum da sua rua nem dos seus anos, mas não há milímetro da sua pele branca que lhe seja desconhecido, nem ângulo que o seu corpo desenhe que não esteja já nas prescrições frias e académicas da perfeição estética. Ela não existe e no entanto é toda corpo. Esfíngico, de cera, gélido e tão só aquilo mesmo que adivinhar-lhe na impenetrabilidade da expressão uma complexa densidade emocional é mais uma condescendência desavisada que se faz por ser de facto muito bela; ou então um abuso de uma fantasia cinematográfica qualquer que começa e que acaba em nós.
Eva é manequim de um amor de poeta; nunca ninguém disse que Eva seria Eva se não tivesse um braço ou fosse mais gorda. Ela é só pele a amar; e há bastantes semelhanças entre ela e a sala onde se senta a fumar e a escrever quem a criou – podemos chamar-lhe filha do ímpeto funcionalista da desobrigação.
Não há nada de paradoxal nisto: que uma pessoa inebriada de amor por outrem se sente, certa noite, e acumule toda a vibração, que habitualmente lhe possuí o discernimento e se lhe confunde com a identidade, numa massa concentrada extrínseca e se demore depois a esculpi-la, a dar-lhe forma, a dominá-la.
Não, não é o prazer sexual, porno, de criação do corpo ideal – este é o prazer erótico de controlo do eu. É Eros por excelência: batota terrena para superação de uma falta que se sente, tensão para a metade que achamos ser de nós porque vivida como excesso fantasmático. Se habitualmente o amor por outrem leva a pessoa que está na sala a senti-la como lhe sendo devida, como sua metade certa por direito, esta noite a vertigem erótica da deposição na metade a haver foi apaziguada pela suficiência de um ponto de aplicação simulacral que foi inteiramente por si determinado, que é uma sua extensão, um seu duplo – um assistente de autarcia ontológica, por assim dizer.
A mais persistente das amantes, a que assola até os casais mais apaixonados, a mais incontornável das infidelidades: eis a solidão apresentada. Esfíngica Eva, bela, gélida, e imperturbável paz, independência da suficiência da solidão; Eva, filha do ímpeto funcionalista que devolve o eu erótico a si próprio e torna a pessoa que está na sala finalmente livre e autárquica.
Toda a violência desapareceu, a mulher que ama mais que tudo acaba de entrar agora em casa e não há angústia nenhuma de possessão.
Havia noites em que o amor – o amor a sério, aquele que se quer muito que resulte – era tão frívolo quanto isto: pura convalescença do eu.
